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Atualizado em 27/08/2018 às 19h42

Capitão, Troneira e Rezadeiras são os destaques da série Çairé desta semana


O Çairé é uma festa que representa o resgate da cultura do povo Borari, que remonta ao processo de colonização dos portugueses na região, que tem destaque, principalmente, na religiosidade dos antepassados de Alter do Chão. O evento é um forte atrativo cultural que movimenta o turismo da região e na série desta semana a Secretaria Municipal de Turismo (Semtur), da Prefeitura de Santarém, evidencia três personagens do Rito Religioso do Çairé: O "Capitão", a "Troneira" e as "Rezadeira".

Todos os elementos da Festa do Çairé têm uma ligação muito forte com a organização, o poder simbólico de cada personagem e o respeito à hierarquia. Dentre os personagens da Festa do Çairé que têm uma carga muito grande de poder é o "Capitão", que é representado pelo senhor Célio Carlos Camargo, mais conhecido como seu Camargo. O "Capitão" tem a função de fazer prevalecer a ordem, do início ao fim da Festa do Çairé, desde a "Busca dos Mastros", até a sua derrubada. "No dia da abertura, estou ali. Na frente, procurando manter a ordem da procissão da Busca dos Mastros, na Ponta da Gurita (Praia do Cajueiro), para trazer ao Barracão do Çairé, para ser enfeitado e levantado. Daí pra frente, até a Derrubada dos Mastros, quando termina a Festa, estou ali atento a tudo", explica Camargo.

A hora da Ladainha é o momento em que o "Capitão" fica mais atento ao que acontece ao redor do Barracão e qualquer tipo de barulho que possa atrapalhar o bom andamento do Rito Religioso o seu Camargo sempre busca abrir um diálogo com a pessoa que estiver gerando a perturbação. Caso não tenha êxito na solicitação, o "Capitão" sempre conta com o apoio dos agentes da segurança pública. "A exemplo, se tiver um carro som, vou lá e solicito para desligar o som e não for atendido, aí Eu chamo a força policial para nos ajudar a manter a ordem da Festa. E sempre estou acompanhado do Procurador, que é autoridade abaixo de mim. E todo mundo me respeita, sempre atendem quando solicitamos", destacou o Capitão.

A indumentária do Capitão tem as características da farda do Capitão da Marinha: toda branca, sapato, meia, cinto, calça, camisa, e o chapéu do Capitão.

Seu Camargo, Capitão do Çairé.

Seu Camargo fala com muito orgulho que a indumentária que usa tem um significado muito importante em sua vida, pois, foi Mestre Fluvial, no comando de uma embarcação. O Capitão usa uma espada de madeira, feita por ele mesmo. "Esse é meu armamento", conta.

Outra função do Capitão é dar a benção com sua espada no início de cada momento do Rito Religioso. "Na hora de benzer o início da saída da procissão do Çairé, na hora de sua chegada, é feita com a espada. Todas as noites, eu tenho que estar lá. Por conta do ritual da benção. A benção com a espada é como se fosse o sinal de início do ritual religioso, eu digo: 'Em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo' e todos respondem: 'Amém' e ai todos fazem a reverência para o Çairé". Isso acontece na hora de pegar o Mastro, com todos os personagens do Çairé. Aí, dou aquela benção, saio na frente, pedindo passagem para a procissão até na beira do rio. E voltamos cantando o 'Macucauá', que segue até o barracão. E para entrar no barracão se dá a benção e entra no barracão", enfatizou.

Conhecida como coordenadora das "Rezadeiras", moradora da rua Lauro Sodré, dona Urbana Coelho Ferreira, uma senhora de 75 anos, viúva, mãe de oito filhos, sendo que eram 10, mas dois faleceram, gosta muito passear, dançar carimbó, sempre participa das programações do Centro de Convivência do Idoso de Alter, mas na época do Çairé tem uma grande responsabilidade na condução das Rezadeiras, que são responsáveis pelo cantos, orações e ladainhas do Rito Religioso. "As Rezadeiras são um grupo de senhoras, que puxam Ladainha do Çairé. Eu coordeno as Rezadeiras desde 1973, quando foi resgatado o Çairé, lá na Praça 7 de Setembro e depois aumentou a audiência da Festa e passou aí para cima", lembrou dona Urbana.

Dona Urbana, coordenadora das Rezadeiras,

Para dona Urbana, o Rito Religioso faz parte de sua vida, pois, por meio dele, as Rezadeiras ficam mais próximas de Deus e da Santíssima Trindade, que sabe que é uma simbologia somente, mas que significa muito espiritualmente. A coordenadora mencionou o nome das senhoras que compõe o grupo das Rezaderias. "Eu, comadre Júlia, a dona Dulcimar, dona Elzenice, dona Zuleide, dona Benedita e a dona Zilma e as novatas, a Bete, a Érica, a Mayara e a Natália. Nós rezamos as Ladainhas com a ajuda dos foliões da festa, eles ajudam a gente e a gente os ajuda a tocarem a folia deles", explica.

A vestimenta das Rezadeiras é toda branca, com saia e blusa que significam a pureza e cantam e rezam as Ladainhas que duram uma hora. "Gosto de todas as Ladainhas, a Ladainha do Çairé é uma hora sem parar e a gente canta no início vários cantos. Inicia com Pai-Nosso e a Ave Maria e depois reza a Ladainha e depois, tem vários cantos, canta para a Santíssima Trindade, que é o símbolo do Çairé, não se canta para o símbolo em si, mas para esse mistério tão bonito que é o do Deus Uno e Trino", ponderou.

Dona Urbana depois da entrevista cantou um trecho de um dos hinos. "Vinde Espirito Divino, nossas almas renovai, sobre os peitos que criastes dons celestes derramei, dons celestes derramai..."

No Barracão do Çairé tem outro elemento que retrata a fé do Povo Borari na Santíssima Trindade, que é a "Coroa do Divino Espirito Santo", que fica em uma espécie de sacrário, denominado "Trono". Dona Ednéia Ferreira da Costa, uma senhora de 74 anos, viúva, que foi "Troneira" até ano passado e por conta de problemas de saúde pediu para que a coordenação cultural do Çairé escolhesse outra pessoa para assumir o cargo a partir deste ano. "Eu Sempre gostei do Çairé, desde que a Festa reiniciou eu trabalhei nela todo o tempo. Agora, com minha doença estou me afastando dos festejos e fico triste porque a nossa juventude não está mais querendo assumir nossos personagens", relatou.

Dona Ednéia, eterna Troneira.

A Troneira tem a função de ornamentar o "Trono da Coroa do Espirito Santo" e somente ela tem autoridade para pegar na Coroa e entregar para quem for conduzi-la no Rito Religioso. Dona Ednéia, ao se referir ao símbolo do Çairé, falou que o "São Çairé" a ajudou a vencer muitas dificuldades relacionadas com a sua saúde, e que agora chegou a hora de deixar essa responsabilidade para outra pessoa.

Esta série trará nas próximas edições outros elementos e personagens da Festa do Çairé, com intuito de promover a valorização da essência do Evento, seguindo as premissas dos estudos do Plano Estratégico da atividade turística, o Plano Encontro, aliada aos esforços de uso sustentável do patrimônio cultural, como instrumentos que favorecem a mudança de consciência dos atores locais e externos, sobre a importância da adoção de novas práticas em relação a esses recursos, sejam eles renováveis, não renováveis, tangíveis ou intangíveis.

Tadeu Pinho Agência Santarém

Prefeitura de Santarém - Coordenadoria de Comunicação